A LÍNGUA KAUPELANESA

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Introdução

A língua kaupelanesa é o idioma nativo de cerca de quatro milhões de pessoas, nas ilhas Banda. É, juntamente com o inglês, a língua oficial do Reino de Kaupelan.

O kaupelanês, com seus cinco dialetos, é derivado do makuwa (ou antigo kaupelanês), língua veicular do arquipélago no século XV. A língua makuwa, na verdade, possuía duas formas distintas de tratamento - o raja e o daqè - que eram utilizadas de acordo com a classe social das pessoas envolvidas. Assim, a forma "raja" era empregada pelos reis e nobres, e por quem se dirigisse a eles, e era considerada a forma clássica e literária da língua, enquanto o "daqè" era utilizado pelo restante da população. Graças principalmente a mercadores e soldados, o makuwa daqè se difundiu oralmente, vindo a se tornar a "lingua franca" da região, na época da expansão do Império Rajakaopalan.

O kaupelanês é escrito num alfabeto próprio, o kiwangar, derivado de uma escrita arcaica introduzida nas ilhas Banda por sacerdotes hindus, no século X. Por influência dos colonizadores europeus, o alfabeto latino também é largamente utilizado. A partir de 1960, foi estabelecida uma transliteração oficial, substituindo as diversas formas existentes. Essa versão considera basicamente o valor fonético das consoantes inglesas e das vogais portuguesas.

 

 

Classificação

 

O kaupelanês pertence à família de línguas austronésias, como o malaio, o javanês, o filipino, o malgaxe e as línguas da Polinésia, por exemplo. Dentro dessa família de línguas, os filólogos classificam-no como pertencente às subdivisões malaio-polinésia, centro-oriental, malaio-polinésia central e bandanesa. São faladas atualmente nas Ilhas Banda, sete línguas do grupo bandanês, subdivididas em 17 dialetos. Nesse grupo, o kaupelanês é classificado como pertencente ao subgrupo oriental.

 

 

História

 

De acordo com estudos de glotoestatística, as primeiras populações austronésias chegaram ao arquipélago bandanês a cerca de três mil anos atrás. A partir de então, sua língua passou a sofrer forte influência de línguas aborígines, não-austronésias. Isso levou ao distanciamento do grupo bandanês que se observa hoje em dia, e à formação de dialetos locais. Os estudiosos tentam reconstituir, a partir das línguas e dialetos desse grupo, a primeira língua falada no arquipélago, denominada protobandanês (pbn). Embora sem possibilidade de comprovação, por não haver registros escritos, as palavras do pbn podem ser inferidas por comparação das línguas bandanesas vivas.

Com a dispersão das populações austronésias pelas ilhas Banda, houve o surgimento de diversos dialetos a partir dessa protolíngua. Esses dialetos, que já traziam a influência da línguas não-austronésias, passam a ser adotados pelas populações locais, absorvendo características léxicas e gramaticais dos falares aborígines. O dialeto bandanês falado no sul de Kiwangar - que daria origem ao kaupelanês - apresenta um significativo substrato lingüístico, atribuído a uma língua não-austronésia, que se convencionou chamar de hubiano.

 

 

Antigo kaupelanês (até 1400)

"Wone wijaya’a i Indra nyiwayi ngawaqi qao jawok jaya adi, ina wayi ngutu mu’suhra; na hunta’a mesar ina dinira lah nayido yimana, na ngèmake adi jih aqni’a, na sulikra adi jih la’a, na kisara wasi sitra adi. Wom rama swarga jawokni saet adi, prawira’u, na wayim mate raksasa i Rawana, jih i Indra nyiwayi ngutu asurara, abat ina dahwok, qatayi o lah tawotjawoqa."

"Indra te envia, para a vitória, esta carruagem afortunada, exterminadora de inimigos, e o grande arco feito por sua mão, e esta couraça parecida com o fogo, e estas flechas semelhantes ao sol, e estas lanças de ferro reluzentes. Sobe então, herói, nesta carruagem celeste e mata o demônio Ravana, como outrora, comigo como cocheiro, Indra fez com os demônios."

trecho da versão do "Ramayana" em makuwa raja

 

Desde a introdução da escrita, no século XI, houve uma efervescente produção literária, particularmente no século XIII, na língua formal da época, então chamada de makuwa raja. Os textos, em sua maioria sobre a nobreza local ou assuntos religiosos (hindus), caracterizavam-se por influências do sânscrito e do antigo javanês. Os manuscritos eram procedentes de Kaotamakuwa, e já utilizavam o alfabeto kiwangar pouco diferente do utilizado atualmente.

Embora o kaupelanês não descenda diretamente do makuwa raja, uma vez que sua origem está mais ligada à forma popular da língua, ou seja, ao makuwa daqè, o estudo da forma raja ainda se justifica. O raja, originalmente uma língua restrita aos reis e nobres, foi se tornando a forma culta e literária da língua e o elo de ligação entre os diversos dialetos que surgiram a partir do século XV. Embora atualmente não seja mais utilizado como língua falada, grande parte de seu léxico foi incorporado pelo kaupelanês.

À época em que eram faladas, as formas raja e daqè tinham um paralelismo entre si, isto é, pode-se dizer que, para cada palavra de uma das formas, existia uma equivalente na outra. Normalmente, ao serem incorporadas ao vocabulário kaupelanês, as palavras do raja passaram a ter um significado ligeiramente diferente de suas correspondentes em daqè. Na maioria das vezes correspondem a significados mais complexos ou são utilizadas em contextos mais eruditos. Como exemplo, temos:

Raja Daqè Significado Original Significado no kaupelanês moderno
samudra tasih sea tasi "mar" , samura "oceano"
nayi tawot homem tau "pessoa", nai "patrão"
nayi hyn watn mulher wana "mulher", naihin "rainha"
diwa wa dia wa "dia", diwa "cotidiano, comum"
raja lyrayi rei lirai "rei", raja "monarca"
kelaem qaen comida hain "comida", kelaim "refeição"
manuh tahy pássaro manu "pássaro", tahi "galinha"
uwat rah sangue raha "sangue", uwa "linhagem"
rupa sampa forma sampa "forma", rupa "imagem"
widun wise estrela wisi "estrela", widun "astro"
wadau sangke pegar sanggi "pegar"; wadau "receber"

A gramática do raja era mais complexa que a do kaupelanês atual. O comparativo era formado por yut "mais" e jih "que", e o superlativo com saqèra "o mais". Havia três artigos definidos: i (antes de nomes próprios);e -a (para substantivos comuns) e -ra (para o plural), ambos pospostos aos substantivos. O possessivo era sempre preposto, utilizando-se os pronomes absolutos. Havia uma conjugação distinta para cada pessoa gramatical. Assim u- "eu", qo- "tu" e "voz", nyi- "ele" e "eles", ma- "nós (exclusivo)", ta- "nós (inclusivo)", mi- "tu"(polido) e "vós" e ra- "eles" (polido). O passado era dado por dah-, o imperativo por -m e o futuro por aewok. Os verbos causativo eram formados pelo auxiliar wayi e a voz passiva pelo infixo -in- e os mesmos prefixos verbais. O agente da passiva era precedido por lah.

Alguns dos pronomes são encontrados nos atuais dialetos kaupelaneses, que sofreram maior influência do makuwa daqè:

português

makuwa raja

makuwa daqè

kaupelan kauta

haima-rata

wisanu

palay.

terong

eu

ham, ridi

au

au

ridi

riji

au

au

tu

qao, nayira

qao

hau, haura

au, naira

qèu, nyor

hóó, hóóra

’oo

ele

in, nayido

in

in

in

in

in

in

nós (excl.)

qame

qame

hami

ami

qame

ham

’ami

nós (incl.)

qita

wiri

wiri

wiri

’ita

firi

wiri

vós

qaora, nayira

qao

haura

naira

qèura

hóóra

’oo

eles

era

era

era

era

era

era

eira

 

A seguir são apresentadas algumas frases em makuwa raja:

i akeri dahwok ayi sandiahy "Akeri foi para Santoi"
wuqit saqe saqèra’a qi qame daqèna "a montanha mais alta do nosso reino"
wosum ayi putra’a "fale com o príncipe"
era bisa rawok mayi samudra mesara "eles poderão vir do grande mar"
dewara dahwayi ngutu tanu ahyta "os deuses destruíram o campo de batalha"
karao luyiha aewok winayi mate "o búfalo sagrado será sacrificado"
wayidauè’a dahinarti lah satriara "a mensagem foi entendida pelos nobres"

Médio kaupelanês (de 1400 a 1800)

 

No século XV, com a ascensão do Sultanato de Rajakaopalan, o vernáculo (makuwa daqè) passa a ser utilizado na linguagem escrita, substituindo a antiga língua dos reis (makuwa raja). Nesse período, passa a haver na língua, então denominada basa Kiwangar, uma acentuada influência do hubiano, além de palavras de origem árabe e malaia e, posteriormente, portuguesa. Os textos já utilizavam o alfabeto kiwangar e um alfabeto derivado do árabe. Nesse período começa a haver a formação dos dialetos wisanu, palayanga, terong e santui (que posteriormente seria considerado como uma língua independente).

Umah a lama

Irasi qi tirau,

Rang silim-silime.

Iwaimai wunga a naqi,

Tirarihe a tauhura,

Buwana a akisura,

Wairupahe.

Iwaingiya anung ati,

Dasai ina kiqasih,

Dangani ina kiu’,

Na wilu simuki.

Walani a yaurati,

Aba ibi saqera,

Yasenaim na ikate.

A velha casa

Volta em sonho,

Insistentemente.

Traz os medos da infância,

A alegria da juventude,

O mundo de planos,

Imaginação.

Exala um perfume familiar,

Dos entes queridos,

Dos brinquedos antigos,

E dos velhos amigos.

Morada da saudade,

De uma época perfeita,

De felicidade e união.

 

Poema "umah a lama" de Raqman Aha’ (séc. XVIII)

 

 

Moderno kaupelanês (a partir de 1800)

 

Começam a surgir diferenças dialetais entre o norte de Kiwangar (islâmico) e o sul (cristão). O dialeto do sul, o kauta, passa a receber empréstimos do inglês, particularmente nas áreas técnicas e científicas, e vai se tornando aos poucos, o padrão formal da língua. Passa a ser classificado pelos estudiosos como o moderno kaupelanês. A produção literária utiliza inicialmente o alfabeto latino, em Purikali. Mas, aos poucos, o alfabeto kiwangar volta a ser utilizado. Embora tendo sofrido alterações fonéticas em relação à língua do período médio, o kaupelanês conserva a mesma grafia daquele período. Essa grafia torna-se o elo de ligação entre os dialetos.

No léxico atual do kaupelanês (dialeto kauta), verifica-se que 26% das palavras vieram do protobandanês (sendo 20% de origem austronésia); 27% são de origem aborígine (hubiana); 2% das palavras vieram do sânscrito; 1% do javanês; 7% do malaio; 7% do português e 27% do inglês.

Considera-se que existam atualmente cinco dialetos do kaupelanês, dentre os quais o de maior prestígio, o kauta, que se tornou a variante oficial da língua. Os demais dialetos são o haimarata, o wisanyo, o terong e o palayanga. Embora haja diferenças léxicas e fonéticas, os dialetos são gramaticalmente bastante semelhantes e mutuamente compreensíveis. Apesar dessas diferenças fonéticas, a língua escrita permanece única para todos os dialetos. Essas variações dialetais surgiram a partir do declínio do Império Rajakaopalan, no século XVI.

 

Apresenta-se a seguir um texto em moderno kaupelanês.

 

"Manik dahuk iluwa kèratun ngisak kewa, ikudu jalasèpai rang kempa ai ratudahen Beramar hi ina isilim kal Nguwate Samèrin. In ibayam ha Musiyum Tana hi ina, ngi wa kitu kiyuk, in iwasum itambi-itambi gam laha antipode. Musiyum isilim hi rai rang kau pain, ha nateriye banda sahera hi kauta, ina kiburung Palimaweru. Fasah wami iwayuk Rolls-Royce ira."

 

"O príncipe saiu do palácio após o almoço, tomando a via expressa em direção ao distrito de Beramar, onde ficava a base da Força de Submarinos. Passou pelo Museu Nacional, onde estivera dias atrás pesquisando sobre a passagem antípoda. O museu fica numa região bem arborizada, próximo ao bairro mais nobre da cidade, chamado Palimaweru. Fasah dirigia o Rolls-Royce vermelho."

 

trecho do livro "Songe Antipode" de Waduk Lasahi (2001)

 

Dialetos

 

Segue uma breve descrição das principais variantes do dialeto kauta, que é considerado a forma padrão da língua.

  

Haimarata

 O dialeto falado no norte de Kiwangar é o mais próximo da língua padrão. As principais diferenças fonéticas são a substituição do fonema r (vibrante) por um r breve, quase d; do j pelo s; e pela ocorrência da vogal y, que corresponde ao u francês. No léxico, conservou alguns arcaísmos do antigo kaupelanês e recebeu influências do malaio, do árabe e de uma antiga língua (belahu) falada no norte da ilha, do mesmo modo que foi menos influenciado pelo português e pelo inglês. Na gramática, manteve o artigo "a". Os verbos são conjugados como no kauta. Seguem algumas correspondências entre o haimarata e a língua padrão:

lyrai - lirai

desa - palima

niu - nu

saawu - sahul

wayuraè - wayurahe

sammi - sambi

yunni - yunti

Allah - Duwala

asi - aji

yangai - lui

  

Wisanyo

 Falado no oeste de Wisanu, o dialeto wisanyo é foneticamente bastante diferente do kaupelanês. Tem o r gutural, como em francês, a parada glotal , o ditongo èu, as vogais longas èè e aa, e os sons ny e q do antigo kaupelanês. Seu vocabulário sofreu influência sobretudo do dialeto ocidental do antigo wisanyo e também da língua waimahui. Gramaticalmente é similar à língua oficial, conservando algumas características do antigo kaupelanês. Segue uma pequena lista de palavras e sua correspondente em kaupelanês:

waale - waili

weyah - wiya

qèu - hau

woso - usu

adèèhaji - wahadi

Dowala - Duwala

’unya - nguya

wanyiworaa - wayurahe

etlo – telu

dulon - tolong

 

 Palayanga

 O vocabulário do dialeto palayanga, falado em Nilau, sofreu forte influência das línguas aborígines suduk e moinate e da antiga língua camwadulan, falada no norte da ilha. Foneticamente, tem o r retroflexo, como no falar caipira, e o fonema c (som de tch) e as vogais longas abertas éé e óó, e a vogal breve ò. Gramaticalmente é semelhante à língua oficial. Segue a pequena lista de vocábulos:

féél - waili

tahu - tahi

hut - yunti

acet - aji

guha - nguya

Duala - Duwala

fahifohrè - wayurahe

mantu - jala

faga - wana

osune - along

 

 Terong

 O dialeto terong é falado sobretudo nas ilhas de Narik, Sutumai e Dodo no arquipélago de Terong. Foi influenciado pelo português e pelas línguas aborígines da região. Foneticamente, tem o ditongo fechado ei, a vogal longa fechada oo, os fonemas nasais iniciais mp e nt, e a parada glotal . Em termos gramaticais, os verbos não são conjugados quanto à pessoa gramatical. Segue a lista de vocábulos:

weili - waili

ntelu - telu

da’i - dahe

wayiworai - wayurahe

awi - ahi

ayi - aji

gaya - ngaja

manu - tahi

mparoo - parau

mata - along

 

 A seguir é apresentada a frase sèngurita dahuk yumaing ai hami paliman ngi saudi "a moça veio à nossa vila à noite" para exemplificar as variações dialetais.

 

puri a dau’ yu’mai ai ami desan ngi saudi

haimarata

 

hitji dah nyiwo’ anyi qame sahn qi woqi

wisanyo

 

faga dah ifoh ahi ham paliman hi sóód

palayanga

 

seyorita da mayi ayi ’ami wila ’i soodi

terong

 

Gramática Básica

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Dicionário Português-Kaupelanês

A Escrita Kiwangar